Faltando poucos meses para a eleição, o Espírito Santo já tem um desenho claro do seu xadrez político — e nesse tabuleiro, o PT aparece jogando uma peça errada, no lugar errado.
Jornalista Lauro Nunes
Os números não deixam margem para romantismo. Helder Salomão, mesmo com o aval direto do presidente Lula, oscila entre 6% e 11% nas pesquisas mais recentes para o governo do Estado. Em qualquer simulação de segundo turno testada até aqui, ele perde — e perde longe — tanto para Lorenzo Pazolini quanto para Ricardo Ferraço.
Do outro lado do tabuleiro do próprio partido, o senador Fabiano Contarato enfrenta uma corrida ao Senado cada vez mais lotada, com ao menos nove nomes cotados para apenas duas vagas, incluindo figuras tradicionais como Paulo Hartung e Sérgio Meneguelli. É exatamente aí que está o cálculo mais interessante: Contarato chega com menos desgaste a uma disputa pelo governo do que a uma corrida ao Senado nesse cenário superlotado — o que muda por completo a equação de viabilidade dentro do próprio PT.
A leitura que falta ser feita
A análise que se impõe é simples: o PT teria um cálculo muito mais racional se reconhecesse a real viabilidade de seus nomes e reorganizasse o tabuleiro. Contarato — que já tem rodagem, mandato e visibilidade construída — seria candidato mais competitivo ao governo do que Salomão. Resolvido esse movimento, o partido trataria depois, internamente, o que fazer com os demais pré-candidatos e correligionários remanescentes.
É uma lógica simples: candidatar o nome com mais capital político acumulado para o cargo de maior peso, e renegociar o resto depois. Isso é estratégia básica de qualquer partido que pense em vencer, não em apenas figurar.
Mas o PT no Espírito Santo, na prática, não age assim. E aqui está o ponto que poucos têm coragem de colocar no papel: esse partido, que nasceu para representar o trabalhador e a pluralidade interna, tem se comportado no Espírito Santo de forma centralizadora — mais parecido, no estilo de condução, com a lógica de cúpula fechada que se vê em partidos como o PL e o Republicanos, prática recorrente desses partidos no Estado, do que com a tradição histórica de debate interno que o PT sempre dizia carregar.
Essa centralização tem nome e tem rosto: o presidente estadual do partido, deputado João Coser, foi quem definiu a prioridade do partido em torno de Casagrande e Salomão, sem abrir espaço real para o debate sobre se essa é, de fato, a equação mais competitiva para o PT no Espírito Santo em 2026.

Diante desse impasse, cabe a pergunta que estrutura esta análise: será que o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva — articulador histórico do enfrentamento à pobreza e ao combate à miséria, com peso de articulação inclusive internacional — não terá que vir pessoalmente ao Espírito Santo alinhar as diretrizes do PT capixaba, diante da dificuldade de a cúpula estadual fazer essa leitura por conta própria?
A aliança PT-PV e a prova da centralização

Essa lógica centralizadora não se limita às candidaturas majoritárias — ela se repete também na partilha de vagas dentro da própria federação/aliança. Partidos parceiros do PT nessa aliança, como o Partido Verde e o PCdoB, foram praticamente sufocados na distribuição de espaço eleitoral no Espírito Santo: quase nenhuma vaga foi disponibilizada para deputado federal a essa base aliada, e apenas três vagas para deputado estadual.
Jornalista Lauro Nunes
Na Serra, esse sufocamento tem nome: o vereador Stefano Andrade (PV). O cenário municipal trabalha contra ele. A Prefeitura da Serra, comandada pelo PDT de Sérgio Vidigal, está alinhada à candidatura de Ricardo Ferraço (MDB) ao governo — e essa mesma base, segundo articulações já registradas, apoia também a candidatura de Renato Casagrande ao Senado. Dentro dessa engrenagem, o próprio João Coser atua como uma espécie de cabo eleitoral de Casagrande.
O problema é que, se Stefano se licenciar do mandato de vereador para concorrer a deputado federal, quem assume sua vaga na Câmara é o suplente — um nome do PT. Isso fortaleceria a bancada do PT dentro da própria máquina legislativa da Serra, num momento em que o Executivo municipal está comprometido com a base de Casagrande e Ferraço, não com o fortalecimento do PT local. Como esse avanço incomodaria diretamente os interesses da aliança governista no município, a tendência é que a candidatura de Stefano a deputado federal seja esvaziada de apoio — secando, ao mesmo tempo, tanto o PT quanto o PV na Serra. Diante desse cenário, o vereador acaba desencorajado antes mesmo de a disputa começar — mesmo reeleito em 2024, ainda que com a terceira menor votação entre os 21 vereadores eleitos no município.
Conclusão
O resultado dessa centralização é o que vemos hoje: um partido com pouca capilaridade municipal — sem vereador eleito sequer na Serra —, apostando suas fichas em uma candidatura ao governo que as pesquisas, mês após mês, mostram não ter força para vencer, ao mesmo tempo em que distribui de forma escassa o espaço de sua própria aliança partidária, deixando parceiros como o PV com margem mínima de representação.
Se o PT quer realmente brigar pelo Palácio Anchieta em 2026, terá que rever essa equação — e isso passa por menos centralização em torno de uma única leitura de cúpula, e mais leitura fria do tabuleiro eleitoral.

E aí, leitor, correligionário do Partido Verde, do PT ou do PCdoB: qual é a sua opinião sobre esse tabuleiro? Deixe seu comentário aqui abaixo.



